Pequeno estudo teológico
Autor: W.L. Albernaz
1. Texto base
“Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo.”
(Hebreus 1:1–2, Almeida)
2. Contexto e estrutura da passagem
A Epístola aos Hebreus foi escrita para cristãos de origem judaica que enfrentavam pressão para voltar ao judaísmo ou relativizar a fé em Jesus. O autor começa com um “prólogo solene” (Hb 1:1–4), apresentando Jesus como a revelação suprema e definitiva de Deus, superior a profetas, anjos e a toda a mediação anterior.
Em Hebreus 1:1–2, há um claro contraste:
Antigamente: Deus falou “muitas vezes e de muitas maneiras” pelos profetas.
Nestes últimos dias: Deus falou “pelo Filho”.
Isso não anula o Antigo Testamento, mas mostra que ele era preparatório e parcial, enquanto Cristo é o cumprimento e plenitude da revelação divina.
3. “Muitas vezes e de muitas maneiras”: a revelação no Antigo Testamento
A expressão “muitas vezes e de muitas maneiras” (em grego: polymerōs kai polytropōs) indica:
Diversidade de formas: visões, sonhos, voz audível, leis, símbolos, tipos, milagres, profecias.
Progressividade: a revelação foi dada ao longo da história, de modo fragmentado, conforme a capacidade de compreensão do povo e o plano redentor em desenvolvimento.
As Escrituras do Antigo Testamento são, portanto, palavra de Deus verdadeira e inspirada, mas apontam para algo maior que viria: o Messias, o Filho.
4. “Nestes últimos dias… pelo Filho”: Jesus como revelação definitiva
A expressão “nestes últimos dias” não se refere apenas ao fim dos tempos, mas ao tempo messiânico, a era da plenitude da revelação em Cristo.
Dizer que Deus “nos falou pelo Filho” significa que:
Jesus não é apenas mais um mensageiro; Ele é a Palavra encarnada (Jo 1:1,14).
Nele, a revelação atinge seu ápice e completude; não há nova revelação pública que o supere.
Conhecê-Lo é conhecer o próprio Deus: “Quem vê a mim, vê o Pai” (Jo 14:9).
Por isso, a teologia cristã afirma que Jesus é a grande revelação de Deus para o mundo.
5. As Sagradas Escrituras e a vida do ser humano
Se Jesus é a revelação máxima de Deus, qual o lugar das Escrituras?
5.1. As Escrituras testemunham de Cristo
O próprio Jesus disse que as Escrituras “falam de mim” (Jo 5:39; Lc 24:27). A Bíblia não é um fim em si mesma, mas o meio inspirado pelo qual conhecemos a pessoa e a obra de Cristo.
5.2. Importância das Escrituras para a vida humana
As Sagradas Escrituras são fundamentais porque:
Revelam quem é Deus: seus atributos, caráter, vontade e plano de salvação.
Mostram a condição humana: pecado, necessidade de redenção e juízo.
Apresentam o caminho da salvação: a fé em Jesus Cristo como único Salvador.
Orientam a vida prática: ética, relacionamentos, justiça, esperança e consolo.
Sem as Escrituras, o conhecimento de Deus seria limitado à revelação geral (natureza, consciência), insuficiente para a salvação.
6. “Não haverá remissão fora dEle”: a exclusividade de Cristo
A carta aos Hebreus enfatiza que:
“Sem derramamento de sangue, não há remissão de pecados” (Hb 9:22).
Cristo ofereceu uma só vez o sacrifício perfeito, entrando no santuário celestial e obtendo eterna redenção (Hb 9:12, 24–26).
Outros textos do Novo Testamento reforçam:
“Em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos.” (At 4:12)
“Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.” (Jo 14:6)
Assim, afirmar que “não haverá remissão fora dEle” é declarar que:
A salvação é exclusivamente cristocêntrica.
Todas as mediações anteriores (profetas, sacerdotes, sacrifícios) eram sombras que apontavam para o sacrifício único de Cristo.
7. Aplicação prática
Diante dessa verdade, algumas implicações para a vida do crente e da Igreja:
Valorizar as Escrituras
Ler, estudar e meditar na Bíblia é buscar conhecer mais a Cristo, a revelação plena de Deus.
Centralizar a pregação em Jesus
Toda mensagem bíblica deve conduzir à pessoa e à obra de Cristo, não apenas a moralismos ou curiosidades.
Viver em fidelidade à revelação definitiva
Não há necessidade de “novas revelações” que contradigam ou superem o Evangelho; o chamado é à obediência à Palavra já dada.
Anunciar a urgência da salvação em Cristo
Se não há remissão fora dEle, a missão da Igreja é proclamar, com amor e clareza, que Jesus é o único Salvador.
8. Conclusão
Hebreus 1:1–2 resume o coração do Evangelho:
Deus falou no passado de modo fragmentado pelos profetas; agora, falou de modo pleno e definitivo em seu Filho, Jesus Cristo. As Sagradas Escrituras são o registro inspirado dessa revelação, indispensáveis para que o ser humano conheça a Deus, entenda sua condição e encontre salvação. E, como não há remissão de pecados fora de Cristo, toda a vida, estudo e missão do povo de Deus devem girar em torno d’Ele, “o autor e consumador da fé” (Hb 12:2).
Autor: W.L. Albernaz
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